ÁGUA
E DEMOCRACIA
Comemorou-se,
no último 22 de março, a passagem de mais
um dia mundial da água, oportunidade em que todos
são convidados a refletir sobre a importância
desse precioso bem e os desafios para protegê-lo e
conservá-lo, em quantidade e qualidade adequadas,
para as presentes e futuras gerações.
O Brasil,
inspirado no modelo Francês, forjado ainda na segunda
metade do século XIX, tem pelejado no desenvolvimento
de estratégias de proteção e conservação
dos seus mananciais. A iniciativa histórica de maior
repercussão nesse sentido foi a aprovação,
no âmbito do estado de São Paulo, das Leis
nº 898/75 e 1172/76, ambas de alcance metropolitano.
Atualmente,
com base na Lei Estadual nº 9866/97, são discutidas
e elaboradas leis específicas para os mananciais
de cada uma das sub-bacias da macro-Bacia Hidrográfica
do Alto Tietê, onde está situada a maior metrópole
paulista. Tais leis específicas deverão atender
as singularidades sócio-ambientais locais e o efetivo
envolvimento da comunidade-alvo na implementação
dos seus instrumentos de gestão.
A despeito
da prioridade para a o uso na dessedentação
e higiene, a água é também elemento
essencial na quase totalidade das atividades produtivas,
econômicas e de lazer, o que permite que lhe confiramos
valor econômico. Ocorre que o seu uso pelos diversos
beneficiários nem sempre é adequado como tampouco
o seu compartilhamento, em quantidade e qualidade, é
justo ou pacífico, motivando o que se convencionou
chamar de “conflito pelo uso d’água”.
Foi
da percepção desse conflito, originado na
competição pelo uso d’água, que
São Paulo partiu na frente, aprovando, em 1991, a
Lei 7663, que possibilitou a implantação do
primeiro Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos
Hídricos do Brasil, paritário, tripartite
e deliberativo, com a participação de 1/3
de representantes do Estado, 1/3 de representantes dos municípios
e 1/3 de representantes da sociedade civil, escolhidos entre
entidades de usuários de água.
O Sistema
conta atualmente com 21 Comitês de Bacia, com competência
para gerir a sua respectiva região hidrográfica,
sendo que a bacia do Alto Tietê possui também
5 Sub-comitês, estando a gestão hierarquizada
onde o Conselho Estadual é a instância máxima
e o FEHIDRO – Fundo Estadual de Recursos Hídricos
- o órgão de suporte financeiro da política
e das ações aprovadas.
A experiência
paulista nesse campo tem representado um curioso laboratório
político-social, onde o Governo do Estado é
exigido na distribuição de informações,
obrigando-o à transparência, à negociação
e ao compartilhamento democrático, antes impensável,
na formulação dos planos, projetos e ações
e na disputa pelos recursos, bem como onde os municípios
são desafiados ao diálogo e à assunção
do papel constitucional de ente federado, como nunca desempenhado
sob a República.
Esse
sistema tem permitido a democratização do
planejamento, peça primordial da cidadania, pela
descentralização na sua formulação
e execução, possibilitando maior integração,
economia de escala, transparência e eficácia
na implementação dos planos, projetos e programas.
Os comitês
têm competência para formular a política
e os planos para o setor, cabendo-lhes, ainda, a aprovação
de normas de gestão e controle, regulando ou orientando
as ações e interfaces das áreas de
proteção e conservação dos mananciais,
saneamento, produção hidroenergética,
uso e ocupação do solo, drenagens e controle
de inundações, perseguindo o objetivo previsto
em lei que é o uso múltiplo da água.
Operam, dessa forma, como um autêntico Parlamento
da Água.
Em 8
anos de existência já foram disponibilizados,
através do FEHIDRO – Fundo Estadual de Recursos
Hídricos, mais de 100 milhões para aplicação
em projetos, com a seguinte distribuição:
85% Municípios; 11% Estado e 4% Sociedade Civil (ONG’s),
sendo numerosas as deliberações tiradas por
consenso e não raras as disputadas, voto a voto,
com resultados surpreendentes, fruto do diálogo e
da articulação entre os pares nos três
segmentos, sepultando, em várias oportunidades, o
clientelismo e a mítica vontade política impositiva
da esfera estadual de governo.
Os recursos
de que tem contado o FEHIDRO para financiamento do sistema
tem se originado de royalties do setor elétrico,
pagos pelas empresas geradoras em razão do uso d’água
para fins de hidrogeração nas usinas. Futuramente,
tais recursos serão incrementados pela implantação
da cobrança pelo uso d’água, cujo projeto
de lei aguarda aprovação na Assembléia
Legislativa paulista, sendo este um dos principais instrumento
de gestão da política de recursos hídricos.
A nível
federal a ANA – Agência Nacional das Águas,
criada pela Lei Federal nº 9984/00, com base na Lei
Federal nº 9433/97, que instituiu a Política
Nacional de Recursos Hídricos, já prepara
a cobrança pelo uso d’água na região
do Comitê de Bacia Hidrográfica do rio Paraíba
do Sul, estimando, para cada metro cúbico de água
retirado pelos usuários, o pagamento de R$ 0,008
e, no caso de lançamento sem tratamento, R$ 0,02
por metro cúbico.
Diferentemente
do modelo paulista, a cobrança pela ANA no Sistema
Federal não garante de aplicação dos
recursos na própria bacia de origem, pois, uma vez
contabilizados na conta comum da Fazenda Nacional, podem
acabar como mais uma famigerada CPMF, sendo esta uma das
principais críticas ao modelo federalizado, que,
além disso, ironicamente, desconhece estados e municípios
como entes que tais (federados), ao não lhes conferir
representação paritária na composição
estatal da câmara colegiada dos Comitês.
Resultado de seu pioneirismo, o sistema paulista tem enfrentado
a resistência dos velhos “feudos”, com
seus interesses encastelados no estado, ávidos em
recuperar a reserva de mercado no usufruto e/ou distribuição
de recursos públicos, práticas à muito
contestadas pela comunidade técnico-científica
e pela sociedade em geral.
Exemplo
disso foi o ocorrido em dezembro de 1999, cujos reflexos
negativos perduram até hoje, quando setores retrógrados
e autoritários, contrariados com os rumos democráticos
das deliberações do Comitê do Alto Tietê,
um dos mais concorridos pela participação
da sociedade civil, aproveitando-se de informações
e privilégios de ordem burocrática, golpearam
as ONG’s (representantes do segmento dos usuários),
manobrando e introduzindo alterações no Manual
de Operações do FEHIDRO para restringir, burocratizar
e embaraçar a proposição, encaminhamento
e liberação de recursos para projetos descentralizados.
Tais
embaraços, no entanto, têm sido paulatinamente
derrubados pelos usuários e seus aliados no segmento
estatal (agentes técnicos e políticos do estado
e prefeituras), que atestam, com isso, bom senso, maturidade,
compromisso público e democrático.
O palco
desse enfrentamento técnico-jurídico e político,
expressão de um conflito conjuntural inerente ao
sistema, não poderia ser outro senão o próprio
“Parlamento da Água”, onde as batalhas
tendem a ser vencidas em favor do equilíbrio do conjunto
das relações sócio-ambientais, animadas
sempre na convicção de que o caminho é
a integração e a descentralização,
com garantia de transparência e democratização
na formulação e execução da
política para o setor, contribuindo no combate à
corrupção numa área historicamente
reconhecida como um dos maiores e descontrolados vazadouros
de recursos públicos do Brasil, como é o caso
das chamadas “obras” hidráulicas e congêneres.
Bonfilio A. Ferreira
(Prolides 1), advogado e jornalista.
Para
saber mais:
http://www.sigrh.sp.gov.br
http://www.comiteat.sp.gov.br
http://www.ana.gov.br