Economia
Solidária:
em busca da sustentabilidade socioeconômica
Eduardo
Coutinho de Paula
A superação
da pobreza requer a adequada potencialização
da população para a obtenção
de meios de subsistência sustentáveis, representando
inclusive um dos principais focos da Agenda 21. Com a finalidade
de responder ao crescente desafio da pobreza generalizada,
do verdadeiro sentido de desenvolvimento e do equilíbrio
ambiental, é vital que consideremos os recursos,
a produção e as pessoas, bem como, questões
demográficas, a melhoria dos cuidados com a saúde
e a educação, os direitos das minorias e das
comunidades locais, num processo democrático de participação,
ligado a um aprimoramento de sua gestão.
Dentro dessa complexa realidade, o presente artigo procura
fazer uma breve apresentação da Economia Solidária
como um caminho viável para a geração
de trabalho e renda e a promoção do desenvolvimento
socioeconômico local de modo sustentável. São
também indicados alguns fatos recentes ligados à
Economia Solidária.
Contextualização
“A
meta da economia global, em sua forma atual, é a
de elevar ao máximo a riqueza e o poder
de suas elites; a do projeto ecológico, a de elevar
ao máximo a sustentabilidade da teia da vida.
Cada vez menos se pode duvidar de que o capitalismo global,
em sua forma atual,
é insustentável e precisa ser reformulado
desde os alicerces.” (Fritjof Capra)
As desigualdades
sociais e a degradação ambiental são
os dois lados de uma mesma moeda.
Podemos considerar que o chamado processo de urbanização
ocorrido nos últimos trinta anos no Brasil não
se constitui numa urbanização; o que de fato
aconteceu foi a destruição do entorno rural
das cidades, sem que esse processo tivesse trazido estruturas
urbanas adequadas às novas necessidades da população,
resultando em cidades desconfiguradas e gigantescos bolsões
de miséria nas regiões periféricas.
Esse processo, chamado conurbação, vem avançando
e aumentando o déficit de equipamentos e serviços
públicos, transporte e habitação. Neste
processo, têm sido preteridas as reservas ecológicas
e as áreas rurais, principais instrumentos capazes
de conter a proliferação indiscriminada das
áreas construídas e cuja preservação
é essencial para a criação e manutenção
de corredores ecológicos, de mananciais hídricos
e do equilíbrio climático.
Numa abordagem de desenvolvimento sustentado, concebemos
um modelo econômico, político, social, cultural
e ambiental equilibrado, que satisfaça as necessidades
das gerações atuais, sem comprometer a capacidade
de as gerações futuras satisfazerem as suas
próprias necessidades. Colocamos em pauta o questionamento,
pessoal e coletivo, sobre o estilo de “desenvolvimento”
adotado, quando se constata que este é ecologicamente
predatório na utilização dos recursos
naturais, socialmente perverso na geração
de pobreza e extrema desigualdade social, politicamente
injusto com concentração e abuso de poder,
culturalmente alienado em relação aos seus
próprios valores e eticamente questionável
no respeito aos direitos humanos e aos das demais espécies.
Resgatando
princípios
Sabemos que na economia original, com finalidades sociais,
a moeda foi criada apenas para facilitar a troca de mercadorias
e serviços. Ao longo do tempo, com o surgimento e
avanços do sistema capitalista, passamos por um processo
gradual de inversão: mercadorias e serviços
é que se tornaram elementos de troca para ampliar
o capital. Temos hoje a troca de capital por mais capital
- de um modo virtual - sem a necessidade de mercadorias
e serviços; as relações humanas passaram
a ser desconsideradas, daí a percepção
de capitalismo nocivo e predatório que vivemos nos
dias de hoje.
Os mecanismos de mercado, por sua vez, são cegos
para o empobrecimento generalizado da população,
as futuras gerações, a natureza e toda criação
do planeta, não garantindo sua sustentabilidade.
A conhecida lenda do rei Midas - que transformava tudo que
tocava em ouro - é bem ilustrativa: a riqueza pela
riqueza, o excesso da riqueza, o acúmulo irracional
como o que temos hoje pela distorção da economia,
acaba matando a si própria.
Como escreveu E. F. Schumacher, 1973, em seu livro “O
Negócio é Ser Pequeno”: “Sob um
ponto de vista econômico, o conceito central da sabedoria
é a permanência. Nada faz sentido economicamente
salvo se a sua continuidade por longo tempo puder ser projetada
sem incorrer em absurdos. Pode haver crescimento rumo a
um objetivo limitado, mas não pode haver crescimento
ilimitado e generalizado. É mais do que provável,
como disse Gandhi, que a Terra proporciona o bastante para
satisfazer a necessidade de cada ser humano, mas não
a voracidade de todos. A permanência é incompatível
com uma atitude predatória que se rejubila com o
fato de que o que era um luxo para nossos pais tornou-se
necessidade para nós. O cultivo e a expansão
das necessidades é a antítese da sabedoria.
É igualmente a antítese da liberdade e da
paz”.
Como o capital só reconhece a demanda pelo poder
de compra e não as necessidades efetivas de uma massa
crescente de excluídos, foi necessário emergirem
práticas de relações econômicas
e sociais que possam favorecer a sobrevivência e a
melhora da qualidade de vida de milhões de pessoas
em diferentes partes do mundo.
Assim, a Economia Solidária constitui-se num conjunto
de iniciativas inspiradas por novos valores culturais que
colocam o ser humano como sujeito e finalidade da atividade
econômica, em vez da acumulação de capital.
Compreende uma grande diversidade de práticas econômicas
e sociais, organizadas sob formas de cooperativas populares,
federações e centrais cooperativas, associações,
movimentos, organizações comunitárias,
compras coletivas, redes de consumidores, empresas autogestionárias
(pequenas, médias e grandes), iniciativas familiares,
feiras ou clubes de troca com uso de moedas sociais (locais,
paralelas a moedas oficiais) e complexos cooperativos.
Historicamente, as experiências pioneiras em Rochdale,
Inglaterra, em meados do século XIX, geraram os seguintes
princípios do cooperativismo, assim conhecidos: i)
adesão voluntária e livre; ii) gestão
democrática; iii) participação econômica
dos membros; iv) autonomia e interdependência; v)
investimento em educação, formação
e informação; vi) intercooperação
e; vii) interesse autêntico pela comunidade. Estes
princípios se desdobraram em múltiplos modos
de manifestação, dependendo das realidades
socioeconômicas, tendo como convergência: a
valorização do trabalho humano, a promoção
das necessidades básicas como eixo da atividade econômica
e comercial, o reconhecimento do lugar privilegiado da mulher
e do feminino, a busca de uma relação harmoniosa
com a natureza e os valores da solidariedade e da cooperação.
Pela Economia Solidária existe uma mudança
nas práticas sociais, buscando-se despertar do consumismo
desenfreado, do individualismo capitalista, dos posicionamentos
hierárquicos nas relações de produção
e humanas como um todo, reivindicando relações
com práticas de solidariedade, respeito às
diferenças e vivendo na multiplicidade.
A Cooperação
nas relações de trabalho e na geração
de renda
A Economia Solidária, também chamada de Economia
Social, Sócio-economia Solidária, Humanoeconomia
ou Economia Popular, é um movimento que propõe
a substituição da matriz sedimentada por um
sistema de valores baseados no lucro, na acumulação
e na competição, por uma matriz resultante
de um sistema de valores centrados no bem estar social e
na cooperação, tendo como valores focais o
trabalho, o saber e a criatividade humanos e não
o capital e sua propriedade.
De acordo com esses fundamentos, os participantes na atividade
econômica devem cooperar ao invés de competir
entre si, com vistas a alcançarmos uma sociedade
em que predomine a igualdade. Pois a chave da proposta da
Economia Solidária é a associação
entre iguais, ao invés de um contrato entre desiguais.
Para a Economia Solidária, a eficiência não
pode se limitar aos resultados materiais de uma dada atividade
econômica, mas se define também como benefícios
sociais e ambientais, em função da qualidade
de vida e da felicidade de seus membros e, ao mesmo tempo,
de todo o ecossistema.
Paul Singer, economista, professor catedrático da
USP, estudioso sério da economia política,
autor de vários livros e intelectual reconhecido
nacionalmente, afirma que aproximadamente 10% da população
mundial estão envolvidos, de alguma forma, numa atividade
da Economia Solidária. Considera que, no Brasil,
menos da metade da população economicamente
ativa vive na lógica capitalista pois uma enorme
quantidade de pessoas trabalha por conta própria
ou como camponeses, pescadores, artesãos, donos de
pequenos negócios, feirantes, etc.
“A Economia Solidária corresponde ao conjunto
de atividades econômicas – de produção,
distribuição, finanças, trocas, comércio,
consumo, poupança e crédito – organizadas
sob a forma de autogestão, ou seja, pela propriedade
coletiva dos meios de produção de bens e serviços
e pela participação democrática (uma
pessoa, um voto) nas decisões dos membros da organização
ou empreendimento”.
(Ministério do Trabalho e Emprego, 2003)
Reconhecemos na prática da AUTOGESTÃO o verdadeiro
diferencial da Economia Solidária. Por autogestão,
entendemos um modelo de organização que objetiva
sustentar relações igualitárias, embasado
na participação democrática da gestão,
no qual o processo grupal é vivenciado de modo transparente
e as decisões são tomadas de modo compartilhado.
Algumas
referências na Economia Solidária
Como referência mundial, destaca-se o caso de Mondragon,
uma cidade no País Basco, na Espanha, onde existe
o maior complexo cooperativo do mundo - que pode ser considerado
um corporativismo cooperativista. São mais de 100
cooperativas, extremamente avançadas, às quais
estão associadas entre 50 e 60 mil pessoas. Uma parte
delas se dedica ao desenvolvimento de tecnologia, como instituições
de pesquisa.
Quebec, no Canadá, e na Europa, os países
escandinavos, são exemplos de economia em que o cooperativismo
tem um papel dominante. A Islândia é indicada
como uma economia em que 80% da produção e
do consumo são feitos mediante cooperativas de camponeses
associados para fortalecimento de suas atividades.
Experiências inovadoras na Austrália, em pleno
curso há vários anos, constam de compras coletivas
e sistemas locais de trocas de mercadorias e serviços
mediante moedas sociais locais. O êxito dessas iniciativas
representa crescente dinamização da economia
em pequenas localidades do interior sob um novo paradigma
de desenvolvimento e estava gerando riqueza e empoderamento
financeiro das comunidades envolvidas.
No Brasil, ao longo dos últimos 15 anos, cooperativas
de produção e de crédito têm
sido protagonistas de várias experiências de
Economia Solidária. A região sul do país,
em especial, tem historicamente uma cultura cooperativista
bem desenvolvida. O Estado de Santa Catarina, predominantemente
agropecuário, avançou consideravelmente na
distribuição de renda nos últimos anos,
mesmo sem ter crescido economicamente.
Desde 1995, um famoso exemplo vem de Pernambuco, a 150 quilômetros
de Recife: a Catende, um caso de grande êxito de autogestão
de massa falida das tradicionais usinas de cana-de-açúcar.
Um exemplo ímpar no Brasil é o do Banco de
Palmas, uma cooperativa de crédito fundada em 1998
em Fortaleza – CE, administrada e gerenciada por lideranças
da Associação de Moradores do conjunto residencial
de Palmas. O Banco é voltado à criação
de uma rede solidária de produção e
consumo local, com a criação de vários
empreendimentos solidários.
Num outro exemplo de Fortaleza, um grupo de jovens de baixa
renda encontrou no empreendedorismo seu caminho de vida.
Em maio de 2005, eles inauguraram uma fábrica de
pranchas de surf, a WF Surf Board. Todas as atividades da
unidade, desde a linha de produção ao gerenciamento,
estão sob a responsabilidade de oito jovens. A fábrica
está inserida num projeto de Economia Solidária
e foi viabilizada pelo Consórcio Social da Juventude,
Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego,
Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS) e Fundação
Banco do Brasil.
Na cidade de São Paulo, há mais de três
anos, o Fórum Municipal de Economia Solidária
e entidades de fomento que dele participam organizam diversos
eventos e feiras, de caráter distrital ou mais amplo,
para a divulgação do movimento, exposição
e comercialização de produtos e serviços
de empreendimentos populares solidários nas áreas
de alimentação, artesanato, confecção,
construção civil, reciclagem, estética,
etc.
Ilustrando um caso atual de São Paulo, temos a ACAS
– Associação Cultural de Artesãos
Solidários da Cidade de São Paulo –
que reúne mais de 70 artesãos, representantes
de vários empreendimentos solidários, das
diversas regiões da cidade. Foi originada de um programa
social emancipatório da prefeitura municipal no período
de 2003 a 2004, em cujo processo tivemos ativa atuação.
Em parceria com outras instituições, continuamos
participando com assessoria direta a ACAS. Os artesãos
vêm acumulando sobre o tema qualidade, procuram criar
a identidade do artesanato urbano de São Paulo e
vêm se esforçando para superar os desafios
da comercialização.
Desafios e perspectivas da Economia Solidária no
Brasil
Sendo um fenômeno recente no país, a Economia
Solidária tem se constituído em um processo
de organização social e econômica de
trabalhadores e trabalhadoras na geração de
renda e inclusão social, bem como de desenvolvimento
local através da constituição de empreendimentos
econômicos solidários e da articulação
de redes de cooperação.
Em seu estudo "Brasil: o boom da economia solidária",
10/2002, Thomas Coutrot, sociólogo francês,
realizou uma avaliação da experiência
brasileira das diversas formas de engajamento do trabalho
na Economia Solidária (1990 a 2001). Registra o crescimento
de 3.550 cooperativas (2,8 milhões de associados,
1990) - em todas as formas existentes no Brasil - ao número
de até 5.100 cooperativas (4,4 milhões de
postos de trabalho, 1998), ou um crescimento de mais de
50%; paralelamente ao alarmante aumento do desemprego no
país. Completando esse estudo ao relato e entrevistas
sobre inúmeras outras experiências com os trabalhadores
cooperados, urbanos e rurais, Coutrot chegou à seguinte
conclusão: "Criatividade política e empreendedorismo
de um lado, precariedade econômica de outro, tal é
o balanço contrastado da economia solidária
e popular brasileira". Ao relacionar a experiência
à globalização neoliberal: "As
cifras mostram um crescimento remarcável da auto-organização
econômica dos esquecidos pela mundialização
capitalista; ao mesmo tempo, o exame do funcionamento destas
iniciativas do cotidiano mostra como é difícil
de sobreviver à margem desta mundialização".
Uma crítica comum à Economia Solidária
refere-se à sua ação restritiva aos
que foram excluídos do mercado de trabalho capitalista,
como uma ação meramente compensatória
e até palhativa. Os críticos mais ferrenhos
chegam a afirmar que existem apenas dois caminhos para as
cooperativas populares e empreendimentos solidários
no atual contexto: serem absorvidos por empresas capitalistas
ou a destruição implacável pela lógica
da concorrência da grande produção.
Com base na experiência em projetos de Economia Solidária
por nós desenvolvidos na CATALISA em parceria com
a Prefeitura Municipal de São Paulo e também
em localidades de seu entorno no PNQ – Plano Nacional
de Qualificação, entendemos que os aspectos
de comercialização e de formalização
dos empreendimentos solidários representam os principais
desafios. Compreendemos que o gargalo em relação
à formalização dos empreendimentos
solidários, mais que o tipo de constituição
jurídica, está na sustentação
das tributações e encargos.
No que tange a comercialização, percebemos
dois caminhos diferentes. Um dos caminhos consiste no aprimoramento
da qualidade e diferenciação dos produtos
e serviços oferecidos com o objetivo de inserção
dos mesmos no mercado e conquista do gosto e preferência
das classes A e B. A abordagem de conscientização,
em crescente divulgação, conhecida como “Comércio
Justo e Solidário” pode catalisar uma mobilização
para o caminho dessa inserção. Outro caminho
identificado é a organização do consumo
local, para a formação de grupos de compras
coletivas e clubes de troca, criação de moedas
sociais, etc. Esse tipo de ação reside na
articulação e mobilização da
própria população-alvo, independentemente
da inserção no mercado. Reconhecemos que os
dois caminhos indicados, apesar de diferentes são
complementares.
O chamado Comércio Justo corresponde a práticas
de parceria entre produtores e consumidores para superar
as dificuldades enfrentadas pelos primeiros, procurando
criar meios e oportunidades para melhorar as condições
de vida e de trabalho dos produtores, principalmente os
pequenos produtores desfavorecidos. O seu propósito
é de promover a eqüidade social, a proteção
do ambiente e a confiança econômica através
do comércio e da promoção de campanhas
e conscientização.
Com a atual hegemonia capitalista, a viabilidade de empreendimentos
solidários isolados restringe-se a raras exceções.
Para os empreendimentos solidários tornarem-se sustentáveis,
precisam cooperar entre si. A organização
de empreendimentos por cadeias produtivas é uma estratégia
que possibilita o fortalecimento dos mesmos. Portanto, a
necessidade de os empreendedores se associarem é
vital, como alternativa para superar os limites do comércio
local, formação de parcerias, divulgação
do trabalho, fortalecimento de imagem e outros aspectos
fundamentais para seu desenvolvimento. Daí a importância
de formação de redes solidárias.
O trabalho em REDE é um modelo de organização
que vem crescendo nas mais diversas situações.
Ancorado em princípios de cooperação,
igualdade, democracia e construção coletiva,
configura-se como uma possibilidade de organização
que facilita a articulação entre os diversos
atores sociais e potencializa suas ações.
Concebemos que a Rede Solidária deve promover uma
estrutura comercial alternativa ao mercado convencional,
não devendo, no entanto, estar à margem deste.
A Rede deve buscar sua sustentabilidade através de
empreendimentos que atendam aos seus critérios e
do consumo organizado.
Sabemos por experiência que, através da Economia
Solidária, podemos levar a prática da cooperação
para novos modos de organização das relações
de trabalho e de relações sociais, geração
e distribuição de renda. Esse processo se
inicia e se fundamenta numa mudança cultural e atitudinal.
Dentro dos vários desafios e perspectivas existentes,
a Economia Solidária vem sendo aplicada como um projeto
de desenvolvimento que visa a sustentabilidade, a justiça
econômica e social e a democracia participativa. Além
disso, trata-se de um forte potencial como projeto pós-capitalista
de organização do consumo, da produção,
do comércio e das finanças em dimensões
local, nacional e global e a essência de um novo sistema
de valores, de relações e de práticas
educativa, cultural e interpessoal.
Considerações
Gerais
Vivemos nos últimos tempos uma acelerada transformação
no mundo do trabalho e, na tendência atual para o
mundo em geral, consideramos que o chamado “emprego”
- com que nos acostumamos (e nos acomodamos) durante várias
décadas – é um modelo formal que se
encontra em franca extinção.
Nessa conjuntura, o movimento da Economia Solidária
vem se expandindo notadamente no país nos últimos
anos, representando uma resposta de parte da sociedade civil
à crise das relações de trabalho e
ao aumento da exclusão social e econômica.
Embora as discussões sobre Economia Solidária
e Desenvolvimento Sustentável sejam recentes, reconhecemos
que a primeira, articulada em rede, constitui-se na sustentabilidade
da economia local, como promotora do desenvolvimento sustentável.
Portanto, além de uma alternativa econômica
das populações mais pobres e alijadas do mercado
de trabalho, a Economia Solidária deve ser percebida
como um poderoso instrumento de reversão do quadro
de pobreza, desemprego, exclusão em todos os níveis
e precarização do trabalho, sustentada em
modos coletivos de geração de trabalho e renda,
integrados aos processos de desenvolvimento local participativos
e sustentáveis.
Destaca-se a atuação das chamadas instituições
de fomento à Economia Solidária, que dão
suporte às iniciativas associativas comunitárias,
promovendo a constituição de empreendimentos
populares solidários, de caráter autogestionário,
cooperativas ou grupos solidários, objetivando a
sustentabilidade em todas as dimensões da vida humana.
Atualmente, a Economia Solidária faz parte da agenda
do Estado através da implantação de
políticas governamentais voltadas a seu desenvolvimento.
O movimento vem se articulando através de fóruns
locais e regionais, resultando na criação
do FBES - Fórum Brasileiro de Economia Solidária
- ocorrido em janeiro de 2003. O Governo Federal criou,
no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego,
a SENAES – Secretaria Nacional de Economia Solidária,
tendo Paul Singer à sua frente.
Em agosto de 2005, foi lançado pela SENAES um Programa
Nacional de fomento a Feiras de Economia Solidária
para os diversos Estados.
Programas de Economia Solidária vêm recebendo
crescente apoio de governos municipais e estaduais, destacando-se
os “bancos do povo” - democratização
do acesso ao crédito - empreendedorismo popular solidário,
capacitação ocupacional, centros populares
de comercialização, etc. Resultado desse processo,
os gestores públicos vêm promovendo o intercâmbio
de experiências para fortalecimento de políticas
públicas específicas.
Nos últimos anos, a fim de permitir que as camadas
de mais baixa renda tenham acesso a crédito e, por
conseqüência, a uma maneira mais digna de vida
graças à obtenção de recursos
para suas atividades, o Governo Federal está incentivando
a expansão de um sistema chamado MICROCRÉDITO
que se transformou em um aliado dos empreendimentos de pequeno,
micro e nano porte, formais ou informais.
O microcrédito revela-se efetivamente como uma alternativa
de crédito para empreendedores de baixa renda - pessoas
físicas e jurídicas - do setor formal e informal.
São empréstimos de valores relativamente pequenos,
destinados a quem pretende montar um negócio ou já
exerce alguma atividade de produção, comércio
ou de prestação de serviços e deseja
fazer crescer suas atividades. Importante destacar que na
filosofia e operação do microcrédito
a que estamos nos referindo, o mesmo destina-se para financiamento
de atividades econômicas e não o consumo.
Vimos também que um dos principais desafios dos empreendimentos
de Economia Solidária é a superação
dos obstáculos para se inserirem no mercado. Além
disso, a interpretação da legislação
vigente no país ainda está sendo discutida
para desobstruir as experiências legítimas
de Economia Solidária, sendo importante a criação
de uma lei específica voltada para as cooperativas
autênticas e empreendimentos solidários.
Existe um grande número de falsas cooperativas de
trabalho em todo o país - formas patronais de roubo
dos direitos sociais dos trabalhadores - que nada têm
a ver com a Economia Solidária. No momento, encontra-se
em estudo interministerial em Brasília – DF
- um anteprojeto de regulamentação das Cooperativas
de Trabalho, que seguramente representa um grande e importante
passo.
Podemos concluir que a Economia Solidária pressupõe
marcantes transformações no mundo do trabalho,
incentivando a eqüidade, a democracia, a cooperação,
a solidariedade, a qualidade das relações
no trabalho, e, mais que tudo, a pessoa humana como prioridade.
É uma outra possibilidade ao modo capitalista de
organizar as relações sociais dos seres humanos
entre si e destes com a natureza. Mais que uma adoção
compensatória, revela-se como uma poderosa política
reestruturante. A ação conjunta entre gestores,
agentes de fomento, empreendimentos e movimentos sociais
é condição vital para o amadurecimento
dos Fóruns de Economia Solidária e enraizamento
do movimento.
Informações atualizadas sobre a Economia Solidária
e seu movimento no país podem ser obtidas permanentemente
na página do FBES (www.fbes.org.br) ou na SENAES
(www.mte.gov.br/empregador/economiasolidaria), além
de inúmeros links indicados. O FBES emite a cada
quinzena um Boletim Eletrônico com notícias
do movimento.
“A Economia Solidária constitui o fundamento
de uma globalização humanizadora, de um desenvolvimento
sustentável, socialmente justo e voltado para a satisfação
racional das necessidades de cada um e de todos os cidadãos
da Terra seguindo um caminho intergeracional de desenvolvimento
sustentável na qualidade de sua vida” (Arruda,
2001/2002)
Reconhecemos o grande desafio que representa o fortalecimento
do movimento da Economia Solidária e o longo caminho
que temos a percorrer. Consideramos que a ênfase na
reflexão sobre o papel da Cooperação
e sua vivência como promotora de novas estratégias
para solucionar conflitos, otimizar a comunicação,
realizar metas comuns, construir coletivamente e compartilhar
o sucesso representam a base para o fomento da Economia
Solidária, com lastro e sustentabilidade das iniciativas.
Deste modo, levar a filosofia, a cultura e a prática
da cooperação voltadas à superação
da pobreza, assim promovendo a inclusão social e
a própria cidadania, revelam-se como uma preciosa
ação de transformação da nossa
sociedade.
Referências
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Localizada: experiências de sistemas locais no Mercosul).
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¨ www.anteag.org.br
¨ www.pacs.org.br
¨ www.mst.org.br
¨ www.caritasbrasileira.org
¨ www.fase.org.br
¨ www.ads.org.br
¨ www.ibase.org.br
¨ www.catalisa.org.br
Eduardo
Coutinho de Paula
Graduado em Engenharia com especialidade em sistema de garantia
de qualidade. Desenvolve Cursos, Oficinas, Projetos e Assessorias
para as áreas Educacional, Organizacional e Comunitária,
com base na metodologia dos Jogos Cooperativos, fundamentos
da Economia Solidária e princípios de Sustentabilidade.
Atua em projetos sociais e ambientais envolvendo qualificação
profissional, geração de renda e educação
ambiental. Permacultor – pela Rede Brasileira de Permacultura.
É docente convidado do Curso de Capacitação
Técnica em Recursos Hídricos para Representantes
da Sociedade Civil no Comitê de Bacias do Alto Tietê,
pela AGDS/FEHIDRO. Dedica-se ao contínuo aprofundamento
sobre consciência de grupo, liderança e sistema
da Trimembração. Atualmente desenvolve estudos
sobre Linguagem Cooperativa. Membro do Conselho Deliberativo
e Coordenador de Projetos da CATALISA – Rede de Cooperação
para Sustentabilidade (www.catalisa.org.br).
Contato:
eduardo@catalisa.org.br