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Economia Solidária:
em busca da sustentabilidade socioeconômica

Eduardo Coutinho de Paula

A superação da pobreza requer a adequada potencialização da população para a obtenção de meios de subsistência sustentáveis, representando inclusive um dos principais focos da Agenda 21. Com a finalidade de responder ao crescente desafio da pobreza generalizada, do verdadeiro sentido de desenvolvimento e do equilíbrio ambiental, é vital que consideremos os recursos, a produção e as pessoas, bem como, questões demográficas, a melhoria dos cuidados com a saúde e a educação, os direitos das minorias e das comunidades locais, num processo democrático de participação, ligado a um aprimoramento de sua gestão.
Dentro dessa complexa realidade, o presente artigo procura fazer uma breve apresentação da Economia Solidária como um caminho viável para a geração de trabalho e renda e a promoção do desenvolvimento socioeconômico local de modo sustentável. São também indicados alguns fatos recentes ligados à Economia Solidária.

Contextualização

“A meta da economia global, em sua forma atual, é a de elevar ao máximo a riqueza e o poder
de suas elites; a do projeto ecológico, a de elevar ao máximo a sustentabilidade da teia da vida.
Cada vez menos se pode duvidar de que o capitalismo global, em sua forma atual,
é insustentável e precisa ser reformulado desde os alicerces.” (Fritjof Capra)

As desigualdades sociais e a degradação ambiental são os dois lados de uma mesma moeda.
Podemos considerar que o chamado processo de urbanização ocorrido nos últimos trinta anos no Brasil não se constitui numa urbanização; o que de fato aconteceu foi a destruição do entorno rural das cidades, sem que esse processo tivesse trazido estruturas urbanas adequadas às novas necessidades da população, resultando em cidades desconfiguradas e gigantescos bolsões de miséria nas regiões periféricas.
Esse processo, chamado conurbação, vem avançando e aumentando o déficit de equipamentos e serviços públicos, transporte e habitação. Neste processo, têm sido preteridas as reservas ecológicas e as áreas rurais, principais instrumentos capazes de conter a proliferação indiscriminada das áreas construídas e cuja preservação é essencial para a criação e manutenção de corredores ecológicos, de mananciais hídricos e do equilíbrio climático.
Numa abordagem de desenvolvimento sustentado, concebemos um modelo econômico, político, social, cultural e ambiental equilibrado, que satisfaça as necessidades das gerações atuais, sem comprometer a capacidade de as gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades. Colocamos em pauta o questionamento, pessoal e coletivo, sobre o estilo de “desenvolvimento” adotado, quando se constata que este é ecologicamente predatório na utilização dos recursos naturais, socialmente perverso na geração de pobreza e extrema desigualdade social, politicamente injusto com concentração e abuso de poder, culturalmente alienado em relação aos seus próprios valores e eticamente questionável no respeito aos direitos humanos e aos das demais espécies.

Resgatando princípios
Sabemos que na economia original, com finalidades sociais, a moeda foi criada apenas para facilitar a troca de mercadorias e serviços. Ao longo do tempo, com o surgimento e avanços do sistema capitalista, passamos por um processo gradual de inversão: mercadorias e serviços é que se tornaram elementos de troca para ampliar o capital. Temos hoje a troca de capital por mais capital - de um modo virtual - sem a necessidade de mercadorias e serviços; as relações humanas passaram a ser desconsideradas, daí a percepção de capitalismo nocivo e predatório que vivemos nos dias de hoje.
Os mecanismos de mercado, por sua vez, são cegos para o empobrecimento generalizado da população, as futuras gerações, a natureza e toda criação do planeta, não garantindo sua sustentabilidade. A conhecida lenda do rei Midas - que transformava tudo que tocava em ouro - é bem ilustrativa: a riqueza pela riqueza, o excesso da riqueza, o acúmulo irracional como o que temos hoje pela distorção da economia, acaba matando a si própria.
Como escreveu E. F. Schumacher, 1973, em seu livro “O Negócio é Ser Pequeno”: “Sob um ponto de vista econômico, o conceito central da sabedoria é a permanência. Nada faz sentido economicamente salvo se a sua continuidade por longo tempo puder ser projetada sem incorrer em absurdos. Pode haver crescimento rumo a um objetivo limitado, mas não pode haver crescimento ilimitado e generalizado. É mais do que provável, como disse Gandhi, que a Terra proporciona o bastante para satisfazer a necessidade de cada ser humano, mas não a voracidade de todos. A permanência é incompatível com uma atitude predatória que se rejubila com o fato de que o que era um luxo para nossos pais tornou-se necessidade para nós. O cultivo e a expansão das necessidades é a antítese da sabedoria. É igualmente a antítese da liberdade e da paz”.
Como o capital só reconhece a demanda pelo poder de compra e não as necessidades efetivas de uma massa crescente de excluídos, foi necessário emergirem práticas de relações econômicas e sociais que possam favorecer a sobrevivência e a melhora da qualidade de vida de milhões de pessoas em diferentes partes do mundo.
Assim, a Economia Solidária constitui-se num conjunto de iniciativas inspiradas por novos valores culturais que colocam o ser humano como sujeito e finalidade da atividade econômica, em vez da acumulação de capital. Compreende uma grande diversidade de práticas econômicas e sociais, organizadas sob formas de cooperativas populares, federações e centrais cooperativas, associações, movimentos, organizações comunitárias, compras coletivas, redes de consumidores, empresas autogestionárias (pequenas, médias e grandes), iniciativas familiares, feiras ou clubes de troca com uso de moedas sociais (locais, paralelas a moedas oficiais) e complexos cooperativos.
Historicamente, as experiências pioneiras em Rochdale, Inglaterra, em meados do século XIX, geraram os seguintes princípios do cooperativismo, assim conhecidos: i) adesão voluntária e livre; ii) gestão democrática; iii) participação econômica dos membros; iv) autonomia e interdependência; v) investimento em educação, formação e informação; vi) intercooperação e; vii) interesse autêntico pela comunidade. Estes princípios se desdobraram em múltiplos modos de manifestação, dependendo das realidades socioeconômicas, tendo como convergência: a valorização do trabalho humano, a promoção das necessidades básicas como eixo da atividade econômica e comercial, o reconhecimento do lugar privilegiado da mulher e do feminino, a busca de uma relação harmoniosa com a natureza e os valores da solidariedade e da cooperação.
Pela Economia Solidária existe uma mudança nas práticas sociais, buscando-se despertar do consumismo desenfreado, do individualismo capitalista, dos posicionamentos hierárquicos nas relações de produção e humanas como um todo, reivindicando relações com práticas de solidariedade, respeito às diferenças e vivendo na multiplicidade.

A Cooperação nas relações de trabalho e na geração de renda
A Economia Solidária, também chamada de Economia Social, Sócio-economia Solidária, Humanoeconomia ou Economia Popular, é um movimento que propõe a substituição da matriz sedimentada por um sistema de valores baseados no lucro, na acumulação e na competição, por uma matriz resultante de um sistema de valores centrados no bem estar social e na cooperação, tendo como valores focais o trabalho, o saber e a criatividade humanos e não o capital e sua propriedade.
De acordo com esses fundamentos, os participantes na atividade econômica devem cooperar ao invés de competir entre si, com vistas a alcançarmos uma sociedade em que predomine a igualdade. Pois a chave da proposta da Economia Solidária é a associação entre iguais, ao invés de um contrato entre desiguais.
Para a Economia Solidária, a eficiência não pode se limitar aos resultados materiais de uma dada atividade econômica, mas se define também como benefícios sociais e ambientais, em função da qualidade de vida e da felicidade de seus membros e, ao mesmo tempo, de todo o ecossistema.
Paul Singer, economista, professor catedrático da USP, estudioso sério da economia política, autor de vários livros e intelectual reconhecido nacionalmente, afirma que aproximadamente 10% da população mundial estão envolvidos, de alguma forma, numa atividade da Economia Solidária. Considera que, no Brasil, menos da metade da população economicamente ativa vive na lógica capitalista pois uma enorme quantidade de pessoas trabalha por conta própria ou como camponeses, pescadores, artesãos, donos de pequenos negócios, feirantes, etc.
“A Economia Solidária corresponde ao conjunto de atividades econômicas – de produção, distribuição, finanças, trocas, comércio, consumo, poupança e crédito – organizadas sob a forma de autogestão, ou seja, pela propriedade coletiva dos meios de produção de bens e serviços e pela participação democrática (uma pessoa, um voto) nas decisões dos membros da organização ou empreendimento”.
(Ministério do Trabalho e Emprego, 2003)
Reconhecemos na prática da AUTOGESTÃO o verdadeiro diferencial da Economia Solidária. Por autogestão, entendemos um modelo de organização que objetiva sustentar relações igualitárias, embasado na participação democrática da gestão, no qual o processo grupal é vivenciado de modo transparente e as decisões são tomadas de modo compartilhado.

Algumas referências na Economia Solidária
Como referência mundial, destaca-se o caso de Mondragon, uma cidade no País Basco, na Espanha, onde existe o maior complexo cooperativo do mundo - que pode ser considerado um corporativismo cooperativista. São mais de 100 cooperativas, extremamente avançadas, às quais estão associadas entre 50 e 60 mil pessoas. Uma parte delas se dedica ao desenvolvimento de tecnologia, como instituições de pesquisa.
Quebec, no Canadá, e na Europa, os países escandinavos, são exemplos de economia em que o cooperativismo tem um papel dominante. A Islândia é indicada como uma economia em que 80% da produção e do consumo são feitos mediante cooperativas de camponeses associados para fortalecimento de suas atividades.
Experiências inovadoras na Austrália, em pleno curso há vários anos, constam de compras coletivas e sistemas locais de trocas de mercadorias e serviços mediante moedas sociais locais. O êxito dessas iniciativas representa crescente dinamização da economia em pequenas localidades do interior sob um novo paradigma de desenvolvimento e estava gerando riqueza e empoderamento financeiro das comunidades envolvidas.
No Brasil, ao longo dos últimos 15 anos, cooperativas de produção e de crédito têm sido protagonistas de várias experiências de Economia Solidária. A região sul do país, em especial, tem historicamente uma cultura cooperativista bem desenvolvida. O Estado de Santa Catarina, predominantemente agropecuário, avançou consideravelmente na distribuição de renda nos últimos anos, mesmo sem ter crescido economicamente.
Desde 1995, um famoso exemplo vem de Pernambuco, a 150 quilômetros de Recife: a Catende, um caso de grande êxito de autogestão de massa falida das tradicionais usinas de cana-de-açúcar.
Um exemplo ímpar no Brasil é o do Banco de Palmas, uma cooperativa de crédito fundada em 1998 em Fortaleza – CE, administrada e gerenciada por lideranças da Associação de Moradores do conjunto residencial de Palmas. O Banco é voltado à criação de uma rede solidária de produção e consumo local, com a criação de vários empreendimentos solidários.
Num outro exemplo de Fortaleza, um grupo de jovens de baixa renda encontrou no empreendedorismo seu caminho de vida. Em maio de 2005, eles inauguraram uma fábrica de pranchas de surf, a WF Surf Board. Todas as atividades da unidade, desde a linha de produção ao gerenciamento, estão sob a responsabilidade de oito jovens. A fábrica está inserida num projeto de Economia Solidária e foi viabilizada pelo Consórcio Social da Juventude, Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego, Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS) e Fundação Banco do Brasil.
Na cidade de São Paulo, há mais de três anos, o Fórum Municipal de Economia Solidária e entidades de fomento que dele participam organizam diversos eventos e feiras, de caráter distrital ou mais amplo, para a divulgação do movimento, exposição e comercialização de produtos e serviços de empreendimentos populares solidários nas áreas de alimentação, artesanato, confecção, construção civil, reciclagem, estética, etc.
Ilustrando um caso atual de São Paulo, temos a ACAS – Associação Cultural de Artesãos Solidários da Cidade de São Paulo – que reúne mais de 70 artesãos, representantes de vários empreendimentos solidários, das diversas regiões da cidade. Foi originada de um programa social emancipatório da prefeitura municipal no período de 2003 a 2004, em cujo processo tivemos ativa atuação. Em parceria com outras instituições, continuamos participando com assessoria direta a ACAS. Os artesãos vêm acumulando sobre o tema qualidade, procuram criar a identidade do artesanato urbano de São Paulo e vêm se esforçando para superar os desafios da comercialização.

Desafios e perspectivas da Economia Solidária no Brasil
Sendo um fenômeno recente no país, a Economia Solidária tem se constituído em um processo de organização social e econômica de trabalhadores e trabalhadoras na geração de renda e inclusão social, bem como de desenvolvimento local através da constituição de empreendimentos econômicos solidários e da articulação de redes de cooperação.
Em seu estudo "Brasil: o boom da economia solidária", 10/2002, Thomas Coutrot, sociólogo francês, realizou uma avaliação da experiência brasileira das diversas formas de engajamento do trabalho na Economia Solidária (1990 a 2001). Registra o crescimento de 3.550 cooperativas (2,8 milhões de associados, 1990) - em todas as formas existentes no Brasil - ao número de até 5.100 cooperativas (4,4 milhões de postos de trabalho, 1998), ou um crescimento de mais de 50%; paralelamente ao alarmante aumento do desemprego no país. Completando esse estudo ao relato e entrevistas sobre inúmeras outras experiências com os trabalhadores cooperados, urbanos e rurais, Coutrot chegou à seguinte conclusão: "Criatividade política e empreendedorismo de um lado, precariedade econômica de outro, tal é o balanço contrastado da economia solidária e popular brasileira". Ao relacionar a experiência à globalização neoliberal: "As cifras mostram um crescimento remarcável da auto-organização econômica dos esquecidos pela mundialização capitalista; ao mesmo tempo, o exame do funcionamento destas iniciativas do cotidiano mostra como é difícil de sobreviver à margem desta mundialização".
Uma crítica comum à Economia Solidária refere-se à sua ação restritiva aos que foram excluídos do mercado de trabalho capitalista, como uma ação meramente compensatória e até palhativa. Os críticos mais ferrenhos chegam a afirmar que existem apenas dois caminhos para as cooperativas populares e empreendimentos solidários no atual contexto: serem absorvidos por empresas capitalistas ou a destruição implacável pela lógica da concorrência da grande produção.
Com base na experiência em projetos de Economia Solidária por nós desenvolvidos na CATALISA em parceria com a Prefeitura Municipal de São Paulo e também em localidades de seu entorno no PNQ – Plano Nacional de Qualificação, entendemos que os aspectos de comercialização e de formalização dos empreendimentos solidários representam os principais desafios. Compreendemos que o gargalo em relação à formalização dos empreendimentos solidários, mais que o tipo de constituição jurídica, está na sustentação das tributações e encargos.
No que tange a comercialização, percebemos dois caminhos diferentes. Um dos caminhos consiste no aprimoramento da qualidade e diferenciação dos produtos e serviços oferecidos com o objetivo de inserção dos mesmos no mercado e conquista do gosto e preferência das classes A e B. A abordagem de conscientização, em crescente divulgação, conhecida como “Comércio Justo e Solidário” pode catalisar uma mobilização para o caminho dessa inserção. Outro caminho identificado é a organização do consumo local, para a formação de grupos de compras coletivas e clubes de troca, criação de moedas sociais, etc. Esse tipo de ação reside na articulação e mobilização da própria população-alvo, independentemente da inserção no mercado. Reconhecemos que os dois caminhos indicados, apesar de diferentes são complementares.
O chamado Comércio Justo corresponde a práticas de parceria entre produtores e consumidores para superar as dificuldades enfrentadas pelos primeiros, procurando criar meios e oportunidades para melhorar as condições de vida e de trabalho dos produtores, principalmente os pequenos produtores desfavorecidos. O seu propósito é de promover a eqüidade social, a proteção do ambiente e a confiança econômica através do comércio e da promoção de campanhas e conscientização.
Com a atual hegemonia capitalista, a viabilidade de empreendimentos solidários isolados restringe-se a raras exceções. Para os empreendimentos solidários tornarem-se sustentáveis, precisam cooperar entre si. A organização de empreendimentos por cadeias produtivas é uma estratégia que possibilita o fortalecimento dos mesmos. Portanto, a necessidade de os empreendedores se associarem é vital, como alternativa para superar os limites do comércio local, formação de parcerias, divulgação do trabalho, fortalecimento de imagem e outros aspectos fundamentais para seu desenvolvimento. Daí a importância de formação de redes solidárias.
O trabalho em REDE é um modelo de organização que vem crescendo nas mais diversas situações. Ancorado em princípios de cooperação, igualdade, democracia e construção coletiva, configura-se como uma possibilidade de organização que facilita a articulação entre os diversos atores sociais e potencializa suas ações.
Concebemos que a Rede Solidária deve promover uma estrutura comercial alternativa ao mercado convencional, não devendo, no entanto, estar à margem deste. A Rede deve buscar sua sustentabilidade através de empreendimentos que atendam aos seus critérios e do consumo organizado.
Sabemos por experiência que, através da Economia Solidária, podemos levar a prática da cooperação para novos modos de organização das relações de trabalho e de relações sociais, geração e distribuição de renda. Esse processo se inicia e se fundamenta numa mudança cultural e atitudinal.
Dentro dos vários desafios e perspectivas existentes, a Economia Solidária vem sendo aplicada como um projeto de desenvolvimento que visa a sustentabilidade, a justiça econômica e social e a democracia participativa. Além disso, trata-se de um forte potencial como projeto pós-capitalista de organização do consumo, da produção, do comércio e das finanças em dimensões local, nacional e global e a essência de um novo sistema de valores, de relações e de práticas educativa, cultural e interpessoal.

Considerações Gerais
Vivemos nos últimos tempos uma acelerada transformação no mundo do trabalho e, na tendência atual para o mundo em geral, consideramos que o chamado “emprego” - com que nos acostumamos (e nos acomodamos) durante várias décadas – é um modelo formal que se encontra em franca extinção.
Nessa conjuntura, o movimento da Economia Solidária vem se expandindo notadamente no país nos últimos anos, representando uma resposta de parte da sociedade civil à crise das relações de trabalho e ao aumento da exclusão social e econômica.
Embora as discussões sobre Economia Solidária e Desenvolvimento Sustentável sejam recentes, reconhecemos que a primeira, articulada em rede, constitui-se na sustentabilidade da economia local, como promotora do desenvolvimento sustentável.
Portanto, além de uma alternativa econômica das populações mais pobres e alijadas do mercado de trabalho, a Economia Solidária deve ser percebida como um poderoso instrumento de reversão do quadro de pobreza, desemprego, exclusão em todos os níveis e precarização do trabalho, sustentada em modos coletivos de geração de trabalho e renda, integrados aos processos de desenvolvimento local participativos e sustentáveis.
Destaca-se a atuação das chamadas instituições de fomento à Economia Solidária, que dão suporte às iniciativas associativas comunitárias, promovendo a constituição de empreendimentos populares solidários, de caráter autogestionário, cooperativas ou grupos solidários, objetivando a sustentabilidade em todas as dimensões da vida humana.
Atualmente, a Economia Solidária faz parte da agenda do Estado através da implantação de políticas governamentais voltadas a seu desenvolvimento. O movimento vem se articulando através de fóruns locais e regionais, resultando na criação do FBES - Fórum Brasileiro de Economia Solidária - ocorrido em janeiro de 2003. O Governo Federal criou, no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego, a SENAES – Secretaria Nacional de Economia Solidária, tendo Paul Singer à sua frente.
Em agosto de 2005, foi lançado pela SENAES um Programa Nacional de fomento a Feiras de Economia Solidária para os diversos Estados.
Programas de Economia Solidária vêm recebendo crescente apoio de governos municipais e estaduais, destacando-se os “bancos do povo” - democratização do acesso ao crédito - empreendedorismo popular solidário, capacitação ocupacional, centros populares de comercialização, etc. Resultado desse processo, os gestores públicos vêm promovendo o intercâmbio de experiências para fortalecimento de políticas públicas específicas.
Nos últimos anos, a fim de permitir que as camadas de mais baixa renda tenham acesso a crédito e, por conseqüência, a uma maneira mais digna de vida graças à obtenção de recursos para suas atividades, o Governo Federal está incentivando a expansão de um sistema chamado MICROCRÉDITO que se transformou em um aliado dos empreendimentos de pequeno, micro e nano porte, formais ou informais.
O microcrédito revela-se efetivamente como uma alternativa de crédito para empreendedores de baixa renda - pessoas físicas e jurídicas - do setor formal e informal. São empréstimos de valores relativamente pequenos, destinados a quem pretende montar um negócio ou já exerce alguma atividade de produção, comércio ou de prestação de serviços e deseja fazer crescer suas atividades. Importante destacar que na filosofia e operação do microcrédito a que estamos nos referindo, o mesmo destina-se para financiamento de atividades econômicas e não o consumo.
Vimos também que um dos principais desafios dos empreendimentos de Economia Solidária é a superação dos obstáculos para se inserirem no mercado. Além disso, a interpretação da legislação vigente no país ainda está sendo discutida para desobstruir as experiências legítimas de Economia Solidária, sendo importante a criação de uma lei específica voltada para as cooperativas autênticas e empreendimentos solidários.
Existe um grande número de falsas cooperativas de trabalho em todo o país - formas patronais de roubo dos direitos sociais dos trabalhadores - que nada têm a ver com a Economia Solidária. No momento, encontra-se em estudo interministerial em Brasília – DF - um anteprojeto de regulamentação das Cooperativas de Trabalho, que seguramente representa um grande e importante passo.
Podemos concluir que a Economia Solidária pressupõe marcantes transformações no mundo do trabalho, incentivando a eqüidade, a democracia, a cooperação, a solidariedade, a qualidade das relações no trabalho, e, mais que tudo, a pessoa humana como prioridade. É uma outra possibilidade ao modo capitalista de organizar as relações sociais dos seres humanos entre si e destes com a natureza. Mais que uma adoção compensatória, revela-se como uma poderosa política reestruturante. A ação conjunta entre gestores, agentes de fomento, empreendimentos e movimentos sociais é condição vital para o amadurecimento dos Fóruns de Economia Solidária e enraizamento do movimento.
Informações atualizadas sobre a Economia Solidária e seu movimento no país podem ser obtidas permanentemente na página do FBES (www.fbes.org.br) ou na SENAES (www.mte.gov.br/empregador/economiasolidaria), além de inúmeros links indicados. O FBES emite a cada quinzena um Boletim Eletrônico com notícias do movimento.
“A Economia Solidária constitui o fundamento de uma globalização humanizadora, de um desenvolvimento sustentável, socialmente justo e voltado para a satisfação racional das necessidades de cada um e de todos os cidadãos da Terra seguindo um caminho intergeracional de desenvolvimento sustentável na qualidade de sua vida” (Arruda, 2001/2002)
Reconhecemos o grande desafio que representa o fortalecimento do movimento da Economia Solidária e o longo caminho que temos a percorrer. Consideramos que a ênfase na reflexão sobre o papel da Cooperação e sua vivência como promotora de novas estratégias para solucionar conflitos, otimizar a comunicação, realizar metas comuns, construir coletivamente e compartilhar o sucesso representam a base para o fomento da Economia Solidária, com lastro e sustentabilidade das iniciativas. Deste modo, levar a filosofia, a cultura e a prática da cooperação voltadas à superação da pobreza, assim promovendo a inclusão social e a própria cidadania, revelam-se como uma preciosa ação de transformação da nossa sociedade.

Referências Bibliográficas:
¨ Ministério do Trabalho e Emprego – “Plano Nacional de Qualificação: Termo de Referência em Economia Solidária”, 2003.
¨ ALBAGLI, Sarita. Globalização e espacialidade: o novo papel do Local. Brasília: IBICT/MCT, 1999.(Coletânea Globalização & Inovação Localizada: experiências de sistemas locais no Mercosul).
¨ ALBUQUERQUE, Francisco. Desenvolvimento Econômico Local e Distribuição do Progresso Técnico: uma resposta às exigências do ajuste estrutural. Fortaleza: Banco do Nordeste, 1998.
¨ ARRUDA, Marcos - “Economia Solidária: Fundamento de uma Globalização Humanizadora”, PACS e Rede Brasileira de Socioeconomia Solidária, Rio de Janeiro, 2001/2002.
¨ QUIEROZ M.I. P. (1973) - Bairros rurais paulistas: dinâmica das relações rural/cidade. São Paulo: Duas Cidades. 1973.
¨ SINGER, Paul – “Introdução à Economia Solidária” – Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2002.
¨ SCHUMACHER, E. F. – Small is Beatiful: Um Estudo de Economia que Leva em Conta as Pessoas - Zahar Editores, 1973.
¨ A Economia Solidária no Brasil – Contexto. São Paulo, 2000.
¨ Do Fórum Social Mundial ao Fórum Brasileiro de Economia Solidária – 2003.
¨ Plenária Estadual de Economia Solidária, Junho de 2003, Campinas – SP – Relatório.
¨ Entrevista com Paul Singer, Brasília, Radiobrás, por: Spensy Pimentel, 28/10/2003.
¨ CATALISA – “Relatório Consolidado do Projeto de Criação de Redes de Cooperação e de Economia Solidária nos Distritos Cidade Ademar e Pedreira, Município de São Paulo”. São Paulo, Outubro de 2004.
¨ Revista Fórum – Outro Mundo em Debate, Editora Publisher Brasil, Outubro de 2004, São Paulo – SP
¨ Revista THOT No. 81, Associação Palas Athenas, Novembro de 2004, São Paulo – SP
¨ Revista Ecologia Integral, No. 24, Centro de Ecologia Integral, Junho de 2005, Belo Horizonte – MG.

Sites:
¨ www.fbes.org.br
¨ www.redesolidaria.com.br
¨ www.ecosol.org.br
¨ www.anteag.org.br
¨ www.pacs.org.br
¨ www.mst.org.br
¨ www.caritasbrasileira.org
¨ www.fase.org.br
¨ www.ads.org.br
¨ www.ibase.org.br
¨ www.catalisa.org.br

Eduardo Coutinho de Paula
Graduado em Engenharia com especialidade em sistema de garantia de qualidade. Desenvolve Cursos, Oficinas, Projetos e Assessorias para as áreas Educacional, Organizacional e Comunitária, com base na metodologia dos Jogos Cooperativos, fundamentos da Economia Solidária e princípios de Sustentabilidade. Atua em projetos sociais e ambientais envolvendo qualificação profissional, geração de renda e educação ambiental. Permacultor – pela Rede Brasileira de Permacultura. É docente convidado do Curso de Capacitação Técnica em Recursos Hídricos para Representantes da Sociedade Civil no Comitê de Bacias do Alto Tietê, pela AGDS/FEHIDRO. Dedica-se ao contínuo aprofundamento sobre consciência de grupo, liderança e sistema da Trimembração. Atualmente desenvolve estudos sobre Linguagem Cooperativa. Membro do Conselho Deliberativo e Coordenador de Projetos da CATALISA – Rede de Cooperação para Sustentabilidade (www.catalisa.org.br).

Contato: eduardo@catalisa.org.br

 
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