HUMANISMO
E A ECO 92
As discussões preparatórias para Eco 92, centradas
no binômio Ecologia e Desenvolvimento, e não
raras vezes nas dicotomia Ecologia ou Desenvolvimento e
Desenvolvimento ou Ecologia, fazem necessárias algumas
observações humanistas.
Ao se
falar em ecologia, em meio ambiente ou desenvolvimento,
mas não se indagar do por quê de tais preocupações
ou de tais projetos, corre-se o perigo de se desumanizar
a discussão sobre a ecologia, sobre o meio ambiente
e sobre o desenvolvimento.
Corre-se
o perigo, por exemplo, da natureza bastar-se por si mesma,
chegando-se a posições de completa negação
do humano. Tais posições ficam claras, em
suas conseqüências, nas defesas que se pode encontrar
de uma volta ao mundo natural, pura e simplesmente, com
a negação total do progresso e do conhecimento
humanos. É como se o ser humano, ao lascar ou ao
polir a primeira pedra, tivesse começado a conspirar
contra uma "natureza primordial que não deveria
jamais ter sido tocada".
Mas
corre-se também (e esse é o perigo maior,
atualmente) o risco de se ritualizar um desenvolvimento
pelo desenvolvimento, dando-se continuidade a toda uma deformação
que mede o desenvolvimento em termos numéricos (PIBs,
Rendas per Capita, Balança Comercial, etc) e não
em termos humanos (Condições Mínimas
de Existência, Qualidade de Vida, Qualidade do Meio
Ambiente, em resumo, na superação da dor e
do sofrimento).
Se de
um lado temos a proposta de volta a um mundo que prescinde
do ser humano, de outro temos a de um mundo crescentemente
desumanizado, com a perpetuação e o agravamento
das distorções atuais.
Frente
a esta situação, não tem sentido, do
nosso ponto de vista, qualquer discussão que não
seja precedida da explicitação dos valores
de que parte.
E deixamos
claro o ponto de que partimos: o ser humano como valor central.
Esse
ser humano, como o consideramos, não é algo
abstrato, não é uma "Humanidade"
genérica, nem uma "natureza humana" boa
ou má. É o ser humano vivo e concreto, no
aqui e agora, mas também herdeiro de realidades (naturais
e sociais) criadas por seres humanos no passado e criador
de realidades (naturais e sociais) com que se defrontarão
os seres humanos vivos e concretos do futuro.
Um ser
humano que tem intencionalidade, o que lhe permite afirmar
ou negar condições naturais/sociais dadas,
fazer escolhas e agir a partir de escolhas feitas. E mais:
a não escolha entre situações dadas
é também uma escolha e afirmação
da própria intencionalidade.
Ao contrário
dos que fecham o futuro humano, afirmando que as ações
humanas seriam determinadas por uma pretensa natureza humana,
que mais se esconde quanto mais se a procura, ou por "leis
do desenvolvimento histórico", ou pelas forças
naturais de um mercado constituída por "agentes
econômicos" e não por seres humanos dotados
de intencionalidade, afirmamos o futuro e que este futuro
ser o que os seres humanos do presente construírem.
Mas
este futuro não é nenhuma certeza. Exatamente
por poderem intencionalizar suas ações, há
muitos futuros possíveis e mesmo a possibilidade
de negação de qualquer futuro, faticamente.
Sabemos, por exemplo, que há armas nucleares suficientes
para aniquilar a vida humana no planeta muitas vezes (como
se uma vez só não fosse o suficiente). Sabemos
também que há armas biológicas que
podem comprometer a vida. E sabemos também que há
ações cotidianas que comprometem a vida.
Este
ser humano de que falamos, vivo e concreto, vive em um mundo
vivo e concreto, e sua casa o planeta em que vivemos.
Se são
possíveis históricos tornar outros planetas
habitáveis para a espécie humana, é
um possível histórico extremamente urgente
a manutenção deste que temos como habitat
humano.
Como
se faz com qualquer habitação, não
apenas temos que conserva-la, como restaurar o que foi danificado.
E nada,
nada mesmo, justifica que isto não seja feito, exceto
a própria intencionalidade humana.
Com
isto queremos deixar claro que, para nós, a luta
não se dá entre desenvolvimento sustentado
e predatório, entre desenvolvimentistas e ecologistas,
entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento,
mas entre seres humanos vivos e concretos que têm
sua intencionalidade voltada para a humanização
ou para a desumanização da Terra.
Esta
posição, traduzida em prática política
e social, implica em desqualificar qualquer defesa de posições
que não tenha por base o ser humano. Assim, por exemplo,
se a destruição da camada de ozônio
coloca a perspectiva de perigo à vida humana no planeta,
qualquer argumento fundado em razões de ordem econômica
‚ simplesmente um engodo. Se o uso de agrotóxicos
destrói as condições de alimentação
saudável e/ou a saúde das águas, argumento
algum poderá justificar seu uso ou não uso
de alternativas que não causem os danos que esta
causa.
Centrar
a discussão em ecologia e/ou desenvolvimento é
por isso mesmo um ponto de partida falso. A discussão
central é e continua sendo, no fundo, a humanização
ou desumanização da Terra.
E colocar
no centro da discussão a humanização
da Terra é explicitar as intencionalidades humanas
orientadas para o futuro, ficando claras as que pretendem
a conservação e agravamento das condições
atuais de desumanização e as que pretendem
a humanização da Terra, com a superação
das condições naturais e sociais que presentemente
a desumanizam.
É
claro que não basta deixar claras as intenções,
embora seja um começo imprescindível. É
preciso ir além, intencionalizando ações
que realmente humanizem a Terra.
E aqui
também, se não basta apenas, para humanizar
a Terra, ter um planeta saudável, é um começo
imprescindível.
Quando
Falamos em planeta saudável, falamos em saúde
do ar, das águas e da terra. Falamos em defesa, preservação
e recuperação da saúde do planeta como
habitat em que o homem vive e humaniza por sua ação.
A preservação
de ecossistemas, o combate à poluição
do ar, das águas e das terras inscreve-se para nós
como prioridade da saúde do próprio ser humano.
De nada adiantará o cuidado com a saúde de
indivíduos já doentes se as condições
ambientais propiciam condições para endêmias.
A ausência
de cuidados na preservação das condições
ambientais, a partir do momento em que se considera como
fundamental a produção, a produtividade ou
qualquer outro valor que não o homem, tem como conseqüência
o comprometimento presente e futuro das condições
de habitabilidade do planeta pelos seres humanos e de nada
adianta a afirmação de que os insetos sobreviverão.
Mas
não basta apenas medidas que impeçam a continuidade
da degradação ambiental que se torna cada
vez mais acelerada, nem as que, em nome da defesa do meio
ambiente, impeçam a ocupação humana
do planeta.
A ação
predatória anterior tem que ser compensada, pela
intencionalidade humana, com a recuperação
do que já foi degradado. E novos espaços passíveis
de ocupação humana poderão e deverão
ser ocupados sem ações predatórias.
Tudo
isso tem que ser feito. E para ser feito tem que ser intencionalizado.
E para ser intencionalizado em uma direção
humanista tem que superar os marcos atuais em que a discussão
sobre "meio ambiente e desenvolvimento" esta colocada,
centrada como esta em "meio ambiente e /ou desenvolvimento".
Terá que se centrar na humanização
da Terra, nos meios ambientes natural e social dos seres
humanos que aqui vivem.
Só
assim se superarará o cinismo dos que querem a preservação
dos espaços a serem ocupados pelo homem sem a recuperação
dos espaços que ocuparam de forma destrutiva. Só
assim se superará o cinismo dos que querem ocupar
novos espaços de forma destrutiva com o argumento
de que aqueles que já ocuparam seus espaços
o fizeram de forma destrutiva. Só assim se superará
o cinismo dos que nada fazem porque os outros não
fazem nada.
Para
consertar, preservar e melhorar nossa casa comum, é
preciso que cada um conserte, preserve e melhore o quarto
que ocupa. Mas ninguém precisa ficar esperando o
outro começar a faxina.
PONTO DE PARTIDA DO HUMANISMO
"O
ser humano, antes de se por a pensar a respeito de suas
origens, ou seu destino, etc., encontra-se em uma determinada
situação que não escolheu. Assim, nasce
submerso em um mundo natural e também social, coalhado
de agressões físicas e mentais, que registra
como dor e sofrimento. E se mobiliza contra os fatores agressivos
tratando de superar a dor e o sofrimento.
Diferentemente
de outras espécies, a humana é capaz de ampliar
suas possibilidades corporais mediante a produção
e utilização de instrumentos, de "próteses"
(em sua etimologia: pró adiante e thesis = posição).
É
assim que em seu acionar contra os fatores dolorosos, produz
objetos e signos que se incorporam à sociedade e
que se transmitem historicamente. A produção
organiza a sociedade e, em contínua retroalimentação,
a sociedade organiza a produção. Este, desde
logo, não é o mundo social e natural dos insetos,
que transmitem sua experiência geneticamente. Este
é um mundo social que modifica o estado natural e
animal do ser humano.
Neste
mundo, nasce cada ser humano. Um mundo em que seu próprio
corpo é parte da natureza e um mundo não natural,
mas social e histórico. Isto é um mundo de
produção (de objetos, de signos), claramente
humano. Um mundo humano em que tudo o que é produzido
esta "carregado" de significação,
de intenção, de para quê. E essa intenção
esta lançada, em última instância, para
superar a dor e o sofrimento.
Com
sua característica ampliação do horizonte
temporal, o ser humano pode diferir respostas, escolher
entre situações e planificar seu futuro. E
é esta liberdade que lhe permite negar aspectos de
seu corpo, negá-lo completamente como no suicídio,
ou negar a outros.
Esta
liberdade permitiu que alguns seres humanos se apropriem
ilegitimamente do todo social. Isto é, que neguem
a liberdade e a intencionalidade a outros seres humanos,
reduzindo-os a próteses, a instrumentos de suas próprias
intenções. Ali esta a essência de discriminação,
sendo sua metodologia a violência física, econômica,
racial e religiosa.
Necessariamente,
aqueles que reduziram a humanidade de outros seres humanos,
provocaram com isso nova dor e sofrimento, reiniciando no
seio da sociedade a antiga luta contra a natureza, mas agora
contra outros seres humanos convertidos em objetos naturais.
Esta
luta não é entre forças mecânicas,
não é um reflexo natural. É uma luta
entre intenções humanas e isto é, precisamente,
o que nos permite falar de opressores e oprimidos, de justos
e injustos, de heróis e covardes. Isto é o
único que permite resgatar a subjetividade pessoal
e é o único que permite praticar com sentido
a solidariedade social e o compromisso com a liberação
dos discriminados, sejam maiorias ou minorias.
A estas
alturas, se impõe uma definição do
ser humano. Não bastará dizer: "o homem
é o animal social", porque outros animais também
o são. Será incompleto defini-lo como fabricante
de objetos, possuidor de linguagem, etc. Para o Humanismo,
o homem é o ser histórico cujo modo de ação
social transforma sua própria natureza.
Se admitirmos
esta definição, teremos que aceitar que pode
transformar também sua própria constituição
física. E é o que esta acontecendo: começou
com próteses externas e hoje já estão
introduzindo em seu próprio corpo. Estão trocando
seus órgãos. Estão intervindo em sua
química cerebral. Esta fecundando in vitro, e começam
a manipular seus genes.
Reconhecendo
que todo ser humano se encontra em situação
e que esta situação se dá no natural
(cujo expoente mais imediato é o próprio corpo),
ao mesmo tempo em que no mundo social e histórico,
reconhecendo as condições de opressão
que alguns seres estabeleceram no mundo, ao apropriar-se
do todo social se depreende uma ética social da liberdade,
um compromisso querido de luta não só contra
as condições que me produzem dor e sofrimento,
mas que as provocam em outros. Porque a opressão
de qualquer ser humano é também minha opressão.
Seu sofrimento é o meu e minha luta é contra
o sofrimento daquele que o provoca.
Mas
ao opressor não lhe basta encadear o corpo. Lhe é
necessário chegar mais longe: apropriar-se de toda
liberdade e de todo sentido, portanto apropriar-se da subjetividade.
Pelo
que foi dito, as idéias e o pensar devem ser coisificadas
pelo Sistema. As idéias "perigosas" ou
suspeitas" devem ser isoladas, encarceradas e destruídas
como se tratasse de germes contaminantes.
Vistas
assim as coisas, o ser humano deve reclamar também
seu direito à subjetividade: perguntar-se pelo sentido
de sua vida e a praticar e pregar publicamente suas idéias
e sua religiosidade ou irreligiosidade. E qualquer pretexto
que trave o exerc¡cio, a investigação,
a pregação e o desenvolvimento da subjetividade,
que o trave ou o postergue, mostra o signo da opressão
que detêm os inimigos da humanidade. (...)
Este
começo, que é também a direção
inicial de todas as nossas teses, não impede que
se possa chegar a um sistema muito amplo de compreensão,
tal qual sucede com aquelas ciências que não
partem de axiomas.
Do ponto
de vista lógico, defendemos a metodologia da analítica
existencial e a opomos a toda lógica anterior que
pretenda passar por inferência do geral ao particular,
já que se não se têm dados do particular,
não se pode enunciar universais que os compreendam.
Retomamos,
neste ponto, a interpretação das proposições
categóricas, segundo a qual as proposições
particulares têm caráter existencial, ao passo
que as universais são sua negação.
"
Bonfilio Alves Ferreira