Ecologia
Humana – Muito além do jardim
“Perdeu-se
a noção de dimensão humana, destruindo-se
a capacidade de reconhecer como co-participante de nosso
destino a pessoa que caminha ao nosso lado”
por
Mirtes Leal e Sylvio Cardozo
Todos
nós, até as crianças, estamos familiarizados
com as expressões “poluição”,
“camada de ozônio”, “reciclagem
de lixo” e inúmeras outras que fazem parte
da preocupação com o meio ambiente, com a
ecologia – termo derivado do grego oikos, que significa
“casa” ou “lar”.
Nunca o homem se interessou tanto pela saúde do Planeta
Terra, no mínimo por um motivo óbvio: ele
não tem outra “casa” para morar. Angustia
a todos a perspectiva de que se esgotem os recursos naturais
ou de que o ar se torne irrespirável, o calor insuportável.
Nosso planeta foi e está sendo dilapidado por interesses
econômicos numa tal escalada que o desfecho dessa
história pode ser a mesma do conto infantil, em que
o ganancioso matou a galinha dos ovos de ouro para apossar-se,
de um só golpe, de todas as riquezas.
Só que não é apenas a perspectiva do
que pode acontecer com o planeta que angustia o homem moderno,
principalmente o das grandes cidades. Seu cotidiano é
assombrado também por outros males: a violência,
o desamparo, a não-adaptação –
estados que são objeto de estudo da ecologia com
foco no homem. Para conversar sobre isso, procuramos o dr.
Moisés Rodrigues da Silva Júnior, psicanalista,
membro do Departamento de Psicanálise do Instituto
Sedes Sapientae e diretor de projetos terapêuticos,
dedicado à constituição de programas
de (re)construção de vidas – atividade
que tem o objetivo de ajudar pessoas a descobrir suas chances
de uma vida mais autônoma e integrada socialmente.
Ele parte da premissa de que o sujeito se constrói
intrincado numa rede de relações pessoais,
sociais, ideológicas e institucionais.
EcoSpy
– O que é mesmo ecologia humana?
Dr.
Moisés – A ecologia humana inclui
três dimensões básicas: a física
(limite mínimo físico de insalubridade e máximo
de conforto), as relações sociais (a necessidade
de respeito a cada indivíduo e a concepção
de bem de cada cultura) e a subjetividade humana. É,
portanto, uma definição aberta e que deverá
ser especificada para cada grupo cultural por meio do embate
político, social e cultural, incluindo-se nessa questão
não só as relações de força
visíveis, como também os domínios da
sensibilidade, da inteligência e do desejo. Não
haverá verdadeira resposta à crise ecológica
a não ser em nível mundial e por meio de uma
autêntica revolução que reoriente a
produção de bens. Não haverá
resposta ecológica para nosso país, a não
ser que nos livremos das tutelas econômicas que nos
pauperizam em todos os âmbitos. Nossa população
está hoje entregue a um destino de desemprego, marginalidade,
doença. Nosso desafio é a re-invenção
do meio ambiente humano. Temos a necessidade e o dever,
ao longo de nossa passagem por este planeta, de nos colocarmos
de forma ativa em relação à produção
da vida nos contextos históricos atuais – um
mundo em processo acelerado de transformações.
EcoSpy – É nas cidades grandes que se desenvolvem
os conceitos de ecologia humana?
Dr.
Moisés – As cidades são incansáveis
“máquinas de crescer”, com um conseqüente
impacto ambiental, incluído aí o homem. Claro
que não é só nelas que se apresenta
a questão da ecologia humana, mas é onde vamos
encontrar imensos desafios, pois o indivíduo tornou-se
apenas um elemento serial da grande massa, perdeu-se a noção
de dimensão humana, destruindo-se a capacidade de
reconhecer como co-participante de nosso destino a pessoa
que caminha ao nosso lado.
EcoSpy – O que fazer diante dessa realidade?
Dr.
Moisés – Em primeiríssimo lugar,
recuperar o espaço público como espaço
de interdependência e restabelecer as relações
de solidariedade, promovendo um investimento afetivo e pragmático.
As pessoas precisam encontrar-se, reconhecer-se e, juntas,
apropriar-se do que é seu, do seu território,
participando da transformação do espaço
“estranho” em espaço próprio.
Pequenas ações locais, fruto do encontro comprometido
das pessoas com projetos próprios, são muito
mais eficientes do que se pensa. Numa escola pública
aqui em frente, outro dia, os alunos, munidos de esfregão
e balde, estavam lavando o muro pichado e as quadras –
tratavam o espaço como deles! Eles organizam, nos
fins de semana, campeonato de futebol, maracatu, pagode.
É um lugar de encontro, cheio de possibilidades.
Aqui no bairro (Vila Madalena – SP) temos uma experiência
de re-ocupação dos espaços públicos,
das praças. Os moradores se reúnem para discutir
como querem que a praça seja, que equipamentos de
lazer devem ter. Eles recuperam uma qualidade perdida de
gastar tempo juntas, jogar conversa fora e também
encaminhar questões como a coleta de lixo, a segurança,
as relações com as autoridades, as atividades
culturais... Essa prática é poderosa: ela
junta as pessoas, tira-as de seu isolamento, desperta a
consciência de não estarem sós e traz
à tona o verdadeiro sentido do social e da solidariedade.
EcoSpy – Mas aí as pessoas não
estarão desempenhando um papel que deveria ser do
poder público?
Dr.
Moisés – A ecologia humana deve trabalhar
na reconstrução das relações
em todos os níveis. Temos de encarar a questão
da ecologia na vida pessoal, familiar, de vizinhança,
buscando a produção de novas formas que tragam
consigo a possibilidade de nos alegrar, recuperando e valorizando
a diferença. Até para podermos exigir ações
do poder público com mais eficiência, é
fundamental buscar a aproximação, o reconhecimento
do outro, criando possibilidades de diálogo. Há
ações concretas para a preservação
do meio ambiente cultural que não são feitas
porque sempre se espera o comando que vem de cima, do governo.
Sabemos de tantas coisas e em tantas poderíamos intervir!
Pode-se entender porque as pessoas, despossuídas
do prazer de construir suas vidas, marcham para os fornos
de extermínio do desejo e do prazer.
EcoSpy – É verdade. Sempre ficamos à
espera de um milagre, do governo, da chuva...
Dr.
Moisés – É preciso recuperar
o sentido do pequeno trabalho como criação
e transformação. É preciso cuidar de
nosso território, fazendo a nossa parte e exigindo
mais do poder público. Vivemos sob o império
da catástrofe e da impossibilidade de fazer algo
para mudar nossa situação de miséria
existencial. Temos fome, e não é só
de pão! Desqualificamos pequenas ações
coletivas cotidianas. Se num quarteirão alguém
desratizar a casa, os ratos vão para as outras residências.
Não seria mais racional, eficiente e econômico
os vizinhos se reunirem para pagar uma desratização
coletiva? As pessoas têm de se aproximar e tentar
resolver juntas os problemas coletivos. Atualmente fala-se
muito em tolerância, mas não se trata apenas
de tolerar o outro, e sim de criar com ele um vínculo
de solidariedade, reconhecer que com o outro se constrói
o próprio destino de vida.
EcoSpy – Mas o senhor reconhece que essa não
é uma atitude fácil?
Dr.
Moisés – Reconheço, claro.
Estamos falando de uma verdadeira revolução.
Em minha prática clínica, como diretor de
uma instituição que trabalha com a construção
de projetos de vida para pessoas que passaram por graves
crises pessoais, me deparo cotidianamente com a insensibilidade
social frente ao sofrimento determinado pela diferença,
fonte de discriminação e estigma. As pessoas
– o conjunto social – tratam o diferente com
brutal crueldade. Quando se inclui o diferente, é
no mais das vezes de forma caricata, caricatura de nós
mesmos e de nossa realidade social. Precisamos valorizar
nossa grande riqueza, que é a diversidade –
aliás, o Brasil deu belos exemplos de sincretismo
quando transformou em Iansã uma santa da Ásia
Menor e deu o nome de Pomba Gira a uma espanhola da Idade
Média.
EcoSpy – Como o cidadão pode participar
da construção do espaço público?
Dr.
Moisés – O espaço público
se constitui a partir da história e das atividades
sociais e culturais desenvolvidas pelos cidadãos.
As comunidades, organizadas de múltiplas formas,
têm de chamar a atenção dos responsáveis
políticos, técnicos e autoridades que defendem
o patrimônio cultural, para as necessidades vividas
por elas. Não podemos, não devemos mais aceitar
as deliberações tecnocráticas, vindas
de gabinetes governamentais, sem conexão com a realidade
e a cultura locais! Não defendo uma forma cultural
presa ao passado ou que desconheça os movimentos
permanentes que as culturas sofrem até suas formas
atuais. Temos de participar do nascimento e da criação
de tudo. Afinal, os bens públicos são nossos
e não dos governos, que são transitórios,
governando, muitas vezes por alianças com um capital
não interessado no humano e no seu destino. A participação
consciente e criativa deve ser o grande motor social, implicando
o desenvolvimento da tecnologia aplicada ao avanço
e ao benefício do homem em sociedade. Senão,
para que serve tudo isso?
Fonte: Revista EcoSpy Brasil – no.
03 – edição maio/junho/2005