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"Sem
a Ecologia Humana, nem a Ecologia Biológica
sobreviverá" |
Emílio
Miguel Abellá é o nome de um dos mais importantes
ambientalistas que São Paulo já teve a honra
de hospedar.
Artista
plástico espanhol, chegou à cidade em 1964,
trazendo na bagagem, além do talento como artista,
a convicção contundente da importância
da militância ambientalista.
Foi
ele o protagonista de um dos mais famosos manifestos da
história da metrópole quando, em 1973, vestido
com um saiote e usando uma máscara de oxigênio,
saiu pelas ruas com uma placa contendo reportagens sobre
a poluição do ar em São Paulo. E isso
não foi o começo. Já havia lançado
as campanhas performáticas contra os contratos de
risco para a exploração madeireira da Amazônia
nos anos 70, contra a poluição de Cubatão
e do Tietê-Billings e contra o fim das Sete Quedas.
E as manifestações não pararam mais.
Fundador
do Movimento Arte e Pensamento Ecológico, nos últimos
tempos de vida, distribuía a todos uma simples folha
verde de plástico, sorrindo e provocando: "guarde
bem esta recordação do que estamos perdendo
para sempre".
Morreu
em junho de 2000, em São Paulo, e sua ausência
comprometeu inevitavelmente o brilho das manifestações
em defesa do meio ambiente desde então..
Patrono
e um dos fundadores do IPEH, Abellá é mais
que uma referência. É um símbolo do
movimento ambientalista paulistano.
Confira
a entrevista dada por Abellá à Revista Aldeia,
publicada na edição de abril/maio de 2000.
"Eu
concordo com Carlile, quando diz que a alma de todos os
progressos é o progresso da alma"
Por
Francisco da Silva e Nelson Pedroso*
Aldeia
- o senhor chegou ao Brasil em 1964, e, após três
meses, houve o golpe militar. Como ficou o ecologista, o
pacifista, em pleno regime militar? O que o levou a sair
às ruas do centro de São Paulo, fazendo o
seu famoso protesto solitário?
Abellá
- Em agosto de 1973, a poluição chegou a um
tal nível na cidade que as rádios recomendaram
à população se provir de colírios
e evitar sair à rua com carro, porque a poluição
podia até matar. A inversão térmica
estava prevista para tida aquela semana. Eu disse: Chegou
o meu dia. Agora eu vou demonstrar perante 10 milhões
de testemunhas como o progresso é muito problemático,
muito questionável. Eu concordo com Carlile quando
diz que a alma de todos os progressos é o progresso
da alma. Aos doze anos eu já falei que ia revisar
o progresso, quando recebi um bofetão de um professor.
Abaixei a cabeça, não de vergonha, mas de
rebeldia. Então, naquele dia, em 1973, eu pensei:
vou sair, vou criar um movimento, vou sair com uma máscara
para combater a poluição, a ditadura tecnológica,
dando um sinal às pessoas para que vissem também
que se tratava de uma ditadura militar. Queria propor uma
reavaliação de todo esse processo que, ao
invés de levar o homem para o destino ao qual estava
designado, o leva para o caos.
Aldeia
- O que é a Ecologia Humana defendida por
Abellá?
Abellá
- Quando se fala em Ecologia, as pessoas só se preocupam
com duas questões, a fauna e a flora. A sensibilidade
planetária que eu vislumbro, no entanto, vai muito
além desses dois fatores. O equilíbrio da
natureza não se limita a eles. Em todo conflito,
de qualquer ordem que seja, existem o agente ativo e o agente
passivo. Com o agente ativo não nos preocupamos nunca,
só com o agente passivo, a biosfera. E o culpado
pela crise da biosfera quem é? Ela é provocada
pela noosfera, a parte inteligente da terra. Então,
não fazemos mais que transferir para a biosfera a
parte crítica, insustentável, desequilibrada,
caótica, apocalíptica, que é a noosfera.
Nunca se enfocou esta parte, e esta é a preocupação
da Ecologia Humana. Devemos considerar o Homem como o responsável
pela crise e responsável também pela saída
da crise. Veja você, a criação parece
ser mais inteligente que o ser humano. A criação
evoluiu de tal maneira, em suas diferentes etapas: mineral,
vegetal, animal, vida racional, e colocou o ser humano no
vértice da pirâmide e agora ele, do vértice,
condena toda a pirâmide: a bomba atômica, a
camada de ozônio, a água potável e a
não potável, as florestas, as áreas
cultiváveis, o ar nas grandes concentrações
humanas onde vive mais de 60% da população
humana. Globalmente, tudo caminha para a degradação.
A natureza segui o seu rumo e o Homem o reverteu. Nas grandes
megalópoles, o ser humano é um elemento decisivo,
e de outro lado estão a flora e a fauna totalmente
degradadas. Tem que englobar tudo isso. Penso que, sem a
Ecologia Humana, nem a Ecologia Biológica sobreviverá.
Se a gente não pode mais pensar pela emoção,
vamos para a Ecologia Humana, a parte econômica, mental,
lógica, global da Ecologia.
Aldeia
- E como o Homem pode interferir novamente agora para voltar,
senão a um equilíbrio, o mais próximo
possível disso?
Abellá
- Difícil, porque existe uma determinante maior que
esta lógica que nós conquistamos, que é
a dialética cósmica. Vimos o fim de várias
civilizações, como a grega, a romana, a egípcia,
só que agora isso não se restringirá
a uma região. Eu estou convencido de que estamos
no fim da nossa civilização. Vai chagar um
momento em que, por saturação da dialética,
a situação vai se reverter, vai haver um ressurgimento.
Você observa em qualquer parte, qualquer fração,
qualquer coisa que parece insignificante, como se dá
uma unificação no ritmo descendente. Aquilo
a que chamamos de progresso tem desenvolvido meios, mas
não finalidades. Nós perdemos as finalidades.
O progresso quer dinheiro, poder, tecnologia, que são
os substantivos de nossa civilização atual.
Mas não são finalidades. São simples
meios, e nós navegamos para o vácuo. E você
vê que os países mais desenvolvidos são
os que mais exaltam esse caminho, os que mais se suicidam,
porque na frente tem o vácuo que não tem sentido
ou explicação. Das várias linhas de
decadência, alguma pode ser a máxima, para
fazer a humanidade refletir e retomar o desenvolvimento.
Aldeia
- E quando chegarmos a esse ponto, teremos tempo de refazer
essa história?
Abellá
- Esta é a preocupação. Temos que chegar
até onde exista retorno. Durante um grande período
da história humana, houve retorno. Eu tento enxergar
onde está a próxima ruptura do ser humano
em sua relação com o meio ambiente, de uma
sustentabilidade que realmente preza o Homem como parte
do ecossistema. Enquanto caçador e coletor, ele era
parte do meio ambiente, e era parte dessa reciclagem natural.
Quando começou a construir os ambientes começou
a haver uma ruptura, com a criação da agricultura
aumentou o desequilíbrio ambiental. Hoje temos essa
contraposição entre ambiente natural e ambiente
construído. Cabe a nós questionarmos qual
é, afinal, o papel do ser humano no ecossistema e
para onde nós queremos ir.
Aldeia
- O senhor vê a possibilidade de uma conscientização
do ser humano no sentido de tentar reaver uma maior integração
com o meio ambiente?
Abellá
- Em primeiro lugar, a quantidade sempre foi inimiga da
qualidade, e a pior poluição é a poluição
humana. É como aquela experiência com ratos,
na qual colocaram 50 ratinhos numa gaiola e 100 em outra,
e aqueles que estavam em maior quantidade se eliminaram
rapidamente. Uns poucos povos ficaram ricos, e o que cresce
é a massa pobre na Terra. Está errado tudo
isso, é uma condenação da espécie
e de todo esse sistema. Então, temos que nos conscientizar
a respeito da reprodução da espécie,
dar mais atenção ao desenvolvimento espiritual
também, já que o ser humano é um binômio
espírito-matéria, e nossa civilização
é muito materialista e aí ela trai a espécie,
que é espiritual. Se você não respeita
o desenvolvimento integral, se você resolve os problemas
apenas parcialmente e não globalmente, acontece isso,
a bomba atômica, outros meio de extermínio
massivo, biológicos e climatólógicos.
Nas grandes cidades acontece a mesma coisa. Basta ver São
Paulo com todos os seus dramas.
Aldeia
- O senhor acha que ainda existe um movimento ambiental,
ou as pessoas estão isoladas, cada uma olhando para
o próprio umbigo?
Abellá
- Por um lado existe um pouco de fisiologismo,
como em toda a parte, em toda a história, e de outra
existe o dinheiro, distraidor, que desvia. Muitas entidades,
por exemplo, receberam dinheiro de fora e traíram
seus financiadores, porque não cumpriram seus compromissos,
desonraram o movimento. Por uma coisa ou outra, aos poucos,
se perdeu a emoção da rua, que é o
combustível do movimento. A emoção
se perdeu. A mídia também se deslumbrou no
começo, e hoje manifesta-se apenas quando ocorrem
grandes tragédias. A mídia é um elemento
decisivo, mas também muito corruptor.
Aldeia
- O senhor já disse que ainda estaria disposto
a trabalhar para que a questão da Ecologia Humana
e Urbana tivesse um mínimo de organização.
Também disse que isso depende da intervenção
de pessoas, não vai surgir de um movimento espontâneo.
Como chegar nesses ecologistas, ambientalistas e formadores
de opinião, que acabam por achar que os problemas
são tão grandes, tão violentos, que
ficam imobilizados?
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Hoje
temos essa contraposição entre ambiente
natural e ambiente construído. Cabe a nós
questionarmos qual é, afinal, o papel do ser
humano no ecossistema e para onde nós queremos
ir |
Abellá
- Eu comentei isso em um seminário. A teoria cansa
e condena o movimento. Por isso, temos que atrelar a teoria
à ações imediatas. Propus: vamos tratar
desses assuntos, sim, mas porque não reurbanizarmos
o Parque D. Pedro? Combinamos, e passou o tempo, e hoje
está assim... A ação é fundamental.
Mas como fazer isso? Eu acabei de entrar em um movimento
que se chama Câmara Júnior Internacional. Dizem
que é muito importante, participaram dele John Kennedy,
Hiroito, o imperador do Japão, só entram pessoas
de 14 a 40 anos. Eu entrei porque tem os que passam, e os
poucos que passam são considerados eméritos.
Eu propus arborizar São Paulo. Enquanto a OMS recomenda
12 metros quadrados de verde por habitante, aqui em São
Paulo foram encontrados 4 metros, e a ritmo decrescente.
Temos que reverter esse quadro. Na Assembléia Legislativa,
se propôs para este ano um fórum sobre cidadania
e meio ambiente. A ONU estabeleceu para este ano o cultivo
da paz. Ecologia e paz. Paz com a natureza e paz com os
homens é a mesma coisa. São desdobramentos
que refletem uma mesma causa. Tudo isso são convergências.
Estamos tentando engatar, coordenar, juntar tudo isso.
Aldeia
- Não te parece que as ong's acabaram virando ilhas
de pensamento ecológico ou mesmo empresarial, que
não se preocupam em estabelecer alianças,
enquanto a prática da ação ecológica
é uma ação de solidariedade?
Abellá
- Temos que ver a questão da Ecologia como algo que
vai muito além das ong's. Ela deve ser uma preocupação
que permeia toda a sociedade. Existem muitas entidades,
correntes e instituições que ainda não
foram cooptadas, encampadas, como as igrejas. Eu já
preguei até que o assunto da Ecologia é tão
profundo que é próprio de artistas e de intelectuais,
por isso a gente criou o MAPE - Movimento Arte e Pensamento
Ecológico. Porque a base de efeito multiplicador
cada um deles tem. O artista tem conceitos, a sensibilidade.
Um escritor, tem uma maneira de perceber as coisas, de expressar.
O artista percebe, o intelectual percebe e entende. Então,
bem focadas e sincronizadas essas coisas, quem sabe senão
se poderia deflagrar esse processo, aos pouquinhos, sem
impaciência, sem pretensão, sem nervosismo?
A gente deveria conduzir mais o movimento pela parte espiritual,
e não mecanicista, econômica, parcial, transitória.
Eu acredito que esse processo vai vir, e talvez privilegiadamente
no Brasil. Eu estou no Brasil porque é um país
humanista, pacifista e espiritualista, como eu me sinto.
Temos essas condições aqui, que podem vir
a deflagrar uma verdadeira revolução na regeneração
de tudo isso que está aí. Sou otimista, porque,
apesar dessas épocas que são como epidemias,
de uma ditadura sangrenta como são as ditaduras,
e de uma democracia incompetente e corrupta, apesar disso,
há um substrato aqui no Brasil, tem espiritualidade.
Temos frustrações por todas a parte, mas nada
ensina tanto quanto a dor. O ser humano não pode
se negar a lutar, não pode se suicidar. Temos que
encontrar uma saída, temos que fazer esse esforço.
Aldeia
- E o museu da Ecologia, qual é a sua proposta? Ele
já existe fisicamente?
Abellá
- Todos os anos se perdem milhares de espécies por
ano, sem registro. Pode ser uma coisa dessas? Se está
empobrecendo a Terra. Qualquer dia vamos ter carências
na saúde, porque faltou o remédio. Só
a Ecologia Humana pode pensar nessas questões. Queremos
partir do microcosmo e ir para os motivos da degradação
humana. E, para fazer o Museu da Ecologia, o Brasil tem
mais material que a Europa inteira. É uma obra grandiosa,
e nós não vamos fazê-lo senão
tivermos os quadros mais competentes em cada área.
Para acelerar esse processo, estamos criando o Museu Virtual.
Talvez o que não conseguimos de dentro para fora
consigamos de fora para dentro. Nossa proposta é
um museu global, transcendental. Queremos um museu descentralizado:
aqui está o museu indigenista, aqui está o
museu científico, aqui o museu da arte, aqui o dos
insetos... Não vai ser um museu estático,
vai ser dinâmico, alegre, aberto, mas extroverso que
introverso, um museu da rua, uma antítese dos museus
até agora.
*Francisco da Silva é coordenador da Regional São
Paulo de Abrosco - Associação Brasileira das
Comunidades Alternativas, e Nelson Pedroso é presidente
da AGDS - Associação Global de Desenvolvimento
Sustentável.